A comunicação pode ser definida como um processo que envolve a troca de informações entre dois ou mais interlocutores por signos e regras semióticas mutualmente entendíveis. Um escuta e o outro fala. A comunicação está feita, mas na realidade é muito mais do que isso. Temos interferências externas, os chamados ruídos, temos a influência sociocultural, a ideologia e crenças de cada envolvido — lembrando que a comunicação se dá muito além da palavra falada ou escrita, ela está no gestual, na voz, no background e na história de cada pessoa.
Dentre as habilidades fundamentais da comunicação, certamente a empatia é uma das mais importantes, entretanto desta vez não vou falar sobre empatia, mas sim sobre um desdobramento dela e um conceito que pode ser considerado como novo: a comunicação inclusiva.
A comunicação inclusiva é uma abordagem que tem como objetivo principal utilizar uma linguagem empática e isenta de estereótipos e expressões discriminatórias para que todas as pessoas se sintam bem-vindas e apreciadas.
Para isso acontecer, precisamos entender mais sobre a nossa língua, entender que a linguagem cria consciência, cultura, ideologia e modifica pensamentos. A Língua é uma ferramenta viva, mutável, que permite mudanças, caso essas mudanças não aconteçam essa língua corre o grande risco de ser tornar uma “língua morta”.
Existem usos gramaticais que, que foram normatizados, e se generalizaram como o comum, não existe coerência ou justificativa linguística para seu uso, eles simplesmente existem, por exemplo, na escola, no momento da escrita, quando treinamos aquela redação para passar no vestibular, ou enviamos um e-mail para a nossa equipe de trabalho nos doutrinaram, nos fizeram crer que para nomear um grupo misto de pessoas usamos determinação, pronomes e demais tratamentos no gênero masculino, e assim estaríamos nomeando tanto as mulheres e homens dentro dessa audiência.
Sentem-se todos, por favor!
Os heróis morrem jovens.
Os pesquisadores avançaram nos testes.
O gênero masculino acaba por ser, portanto, considerado como o neutro, mas na realidade ele não é. O neutro só pode ser utilizado para objetos ou situações únicas: o medo, o cômico, o inventário. Então quando usamos o masculino para lidarmos com um grupo grande, ou uma generalização, estamos por consequência excluindo na realidade as mulheres, o que no subconsciente pode reforçar estereótipos e ideias equivocadas sobre quem realmente sejam OS heróis ou façam uma tarefa digna como PESQUISADORES. As palavras não podem significar algo diferente do que nomeiam. O conjunto da humanidade está formado por mulheres e homens, mas em nenhum caso a palavra homem representa a mulher ou vice-versa.
OK, então resolvid(X), vamos utilizar o gênero neutr(x) e resolvemos esse problema.
Antes fosse resolvido com uma solução simples assim. Quanto a pauta citada acima, que podemos chamar de sexismo gramatical entrou em debate, muitos meios de comunicação escrito e pessoas em suas redes sociais passaram a escrever como na forma acima, trocando a última vogal — a ou — o pelo X, assim tod(x) estariam representados. Pois bem, vocês sabiam que os dispositivos especializados na transcrição dos textos para pessoas cegas ou com problemas de visão não reconhecem essa forma de escrita? Os apps, aplicativos e programas que “traduzem” o texto escrito para a fala não conseguem ler isso, e a solução volta a ser um problema.
Ah, então vamos lá, passemos a utilizar o todES e caso encerradE. Os deficientes estão incluídos e esse assunto acabou.
Mais um não.
O que define alguém como deficiente na sua visão? Na visão da sociedade? No dicionário? De acordo com o Houaiss:
Deficiente: substantivo de dois gêneros. 1. Que tem alguma deficiência; falho, falto ‹funcionamento d.›. 2. Que não é suficiente do ponto de vista quantitativo; deficitário, incompletos ‹dados estatísticos d.›. 3. ARIT que é menor que a soma de seus divisores próprios (diz-se de número) cf. número deficiente; p.opos. a abundante. 4. Aquele que sofre ou é portador de algum tipo de deficiência.
Uma pessoa por ter perdido uma perna, ou nascido com dificuldades na visão é um deficiente: uma pessoa falha, incompleta? Devemos chama-la de deficiente? Então, como devo chamar então alguém que anda em uma cadeira de rodas?
Pelo nome, simples assim..
Pedro tem deficiência intelectual.
José está no Espectro Autista.
E assim por diante. Com a preocupação de facilitar os processos pedagógicos, médicos, jurídicos, sociais, etc. cada tipo de deficiência deve ser “pronunciada” de acordo com a terminologia correta, sempre colocando a PESSOA COM DEFICIÊNCIA em primeiro lugar, e quando necessário seguimos especificando a deficiência em questão. Todos temos necessidades específicas, alguns mais visíveis, outras mais complexas e outras ainda mais simples. O ser humano não é um ser perfeito e é muito difícil, para não dizer impossível, encontrar alguém que seja um modelo de perfeição idealizada.
Já entendi, mais um erro a não cometer ou vou parar na lista negra do politicamente correto.
Não você não vai parar na lista negra, você pode parar apenas em uma lista daqueles que precisam aprender algo. Não existe lista negra, não existe mercado negro, não existe denegrir a imagem. Todas essas expressões que há anos utilizamos, na sua essência repercutem o racismo estrutural que faz parte não apenas da sociedade brasileira, mas do mundo como um todo. As palavras são carregadas de memórias, e em um país como o Brasil, de uma história de racismo e segregação esse papel das ideias se destaca, acabamos por usar palavras e expressões que traduzem tensões históricas.
Ah, então deixa para lá, quer saber é melhor a gente não conversar ou escrever mais nada, podemos ofender alguém. Na infância ouvíamos piadas sobre os “viadinhos”, xingávamos os amiguinhos do colégio de gordo e sobrevivemos todos até aqui. É mimimi demais.
Uma máxima da internet diz, de acordo com a sabedoria cibernética popular: o mimimi é a dor que não dói na gente. Realmente crescemos como uma sociedade sadia, com relacionamentos traçados no respeito mútuo, ou simplesmente adotamos a política de colocar embaixo do tapete, ou pior não sermos capazes de realmente sentir como pequenas coisas podem ferir e tirar o local de fala do próximo. Aquela pessoa que senta do seu lado no ônibus e que você mede pensando “se não comesse tanto não estaria me espremendo nessa cadeira” talvez só tenha um biotipo diferente do seu, porque sim, corpos tem tamanhos e formatos diferentes. Porque podem existir olhos azuis, verdes, castanhos, mas não quadris que vestem manequim 40, 42, 46.
O “viadinho” da piada da TV, ou das imitações, o mordomo engraçado da novela, será que eles nunca apanharam na rua devido a sua orientação sexual? Ou viveram — e vivem — com medo tendo que esconder quem realmente são?
A comunicação inclusiva é isso. É respeitar a diferença entre os iguais e entre os diferentes. Sei que apenas, infelizmente em um mundo de sonhos, poderemos estar em uma sociedade na qual não haja qualquer tipo de exclusão, mas tentar derrubar as barreiras ou diminui-las, através da forma como nos comunicamos já é um grande começo.
A comunicação inclusiva nada mais é do que linguagem do amor, ela é bem intencionada, é respeitosa, é curiosa, é gentil e cheia de afeto.
Antes de levantar muros, trace caminhos e construa pontes. Respeitando todas, todos e todes.